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Empreendedorismo científico
Série Inovacia e Conecta Cientista #24

Deep techs: o que a Europa entendeu e o Brasil ainda precisa estruturar

A Europa transformou spinouts acadêmicas em ativos estratégicos de inovação, competitividade e soberania tecnológica. O que o Brasil precisa estruturar para converter sua ciência em deep techs de impacto global?

Dra. Paula Coelho20 de janeiro de 20266 min de leitura
Brasil e União Europeia conectados por ciência, deep tech, inovação, inteligência artificial, capital, universidades, startups e mercado.

Durante décadas, universidades e centros de pesquisa europeus foram reconhecidos como verdadeiros tesouros científicos. O que mudou recentemente não foi a qualidade da ciência produzida, mas a capacidade de transformar pesquisa em empresas escaláveis, com impacto econômico real.

Segundo o European Spinout Report 2025, da Dealroom, as startups deep tech e de ciências da vida originadas em universidades europeias já formam um ecossistema avaliado em US$ 398 bilhões. Mais do que isso, o capital de risco está seguindo esse movimento de forma consistente.

Hoje, 76 spinouts acadêmicas europeias atingiram valorizações de US$ 1 bilhão, receitas acima de US$ 100 milhões ou ambos. Empresas como Iceye, IQM, Isar Aerospace, Synthesia e Tekever deixaram de ser exceções para se tornarem provas concretas de que ciência pode virar negócio global.

Quando spinouts deixam de ser exceção e viram política econômica

O relatório mostra que a Europa construiu algo que muitos países ainda não conseguiram: um pipeline estruturado de spinouts acadêmicas, apoiado por fundos especializados, governança institucional madura e um ambiente de negócios mais previsível para deep tech.

Fundos como Cambridge Innovation Capital e Oxford Science Enterprises foram pioneiros nesse modelo. Hoje, essa lógica se expandiu para novos atores e novas geografias. Spinouts deixaram de ser vistas como projetos experimentais e passaram a ser tratadas como ativos estratégicos de retorno financeiro e soberania tecnológica.

Capital segue onde há estrutura, não apenas talento

Mesmo com o mercado europeu de venture capital ainda cerca de 50% abaixo do pico de 2021, as spinouts acadêmicas europeias estavam a caminho de captar US$ 9,1 bilhões em 2025, um dos maiores volumes da história.

Essas empresas nascem de laboratórios altamente especializados, o que explica por que o ecossistema europeu não se limita apenas a Oxford, Cambridge ou ETH Zurich. Existe uma cauda longa de universidades capazes de gerar spinouts relevantes quando há estrutura institucional, capital e conexão com o mercado.

O gargalo que ainda persiste: capital de crescimento

Apesar dos avanços, o relatório aponta um problema estrutural que a Europa ainda enfrenta: capital para crescimento em estágios mais avançados.

Quase 50% do financiamento late stage das spinouts deep tech e life sciences europeias ainda vem de fora do continente, principalmente dos Estados Unidos. Isso significa que parte do valor criado a partir de investimento público em ciência ainda é capturada por outros mercados.

Mesmo assim, a diferença é clara. A Europa já construiu o caminho até o crescimento. Muitos países ainda sequer chegaram a esse estágio.

E o Brasil com isso?

Ao ler esse relatório, a pergunta é inevitável: o que impede o Brasil de construir um funil semelhante?

Talento científico existe. Universidades públicas de excelência existem. Produção acadêmica relevante existe. O que ainda falta não é ciência. Falta estrutura, colaboração e ambiente de negócios para transformar pesquisa em empresas que escalam.

A experiência europeia mostra que spinouts não escalam sozinhas. Ciência não vira negócio apenas com boa vontade do pesquisador. Capital não flui sem previsibilidade regulatória e governança.

No Brasil, na prática, seguimos tratando o empreendedorismo científico como exceção, quando ele deveria ser política de desenvolvimento econômico, conectando universidade, Estado, investidores e empresas de forma coordenada.

O papel das políticas públicas e do ambiente de negócios

Se o Brasil quiser transformar ciência em deep tech de impacto global, precisará enfrentar questões estruturais que vão muito além de editais pontuais ou programas isolados:

É fundamental garantir segurança jurídica e clareza regulatória na relação entre universidades, pesquisadores e empresas. Ambiguidade em regras de propriedade intelectual, contratação e participação societária afasta investidores e desestimula pesquisadores a empreender.

O país precisa de instrumentos de capital para crescimento, não apenas para a fase inicial. Sem fundos nacionais ou mecanismos que sustentem rodadas late stage, o valor criado continuará sendo capturado fora do país.

É essencial incentivar fundos especializados em spinouts acadêmicas, com mandatos claros, governança profissional e conexão direta com universidades e centros de pesquisa.

É necessário alinhar incentivos. Universidades, agências de fomento, pesquisadores e investidores ainda operam com lógicas desconectadas. Sem contratos, métricas e expectativas alinhadas, o sistema gera atrito em vez de tração.

Políticas públicas precisam considerar a criação de infraestrutura de articulação do ecossistema de inovação, com mecanismos que tornem visíveis talentos, ativos científicos, oportunidades de mercado e caminhos de comercialização, fortalecendo a cooperação entre universidades, empresas, investidores e Estado. Essa lacuna ainda é pouco explorada no debate público brasileiro.

Por fim, o empreendedorismo científico precisa ser tratado como estratégia de desenvolvimento, e não como atividade periférica da academia.

Ciência não falta. Falta estrutura.

A Europa mostra que universidades podem ser motores centrais de deep tech, competitividade global e soberania tecnológica. Não porque tenham mais ciência, mas porque construíram estruturas que conectam conhecimento, capital, mercado e cooperação institucional.

O Brasil não precisa escolher entre ciência e mercado. Precisa construir as pontes que transformam uma coisa na outra.

O verdadeiro desperdício não é investir em ciência. É investir em ciência e não criar as condições para que ela vire valor econômico e impacto social.

Referência

European Spinout Report 2025 — Dealroom dealroom.co/reports/european-spinouts-report-2025

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Autora

Dra. Paula Coelho

Fundadora e CEO da Inovacia e da Conecta Cientista, fundadora e presidente da AI Safety Brazil, pesquisadora de empreendedorismo científico e doutora em Inovação Tecnológica.

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