Deep techs: o que a Europa entendeu e o Brasil ainda precisa estruturar
A Europa transformou spinouts acadêmicas em ativos estratégicos de inovação, competitividade e soberania tecnológica. O que o Brasil precisa estruturar para converter sua ciência em deep techs de impacto global?

Durante décadas, universidades e centros de pesquisa europeus foram reconhecidos como verdadeiros tesouros científicos. O que mudou recentemente não foi a qualidade da ciência produzida, mas a capacidade de transformar pesquisa em empresas escaláveis, com impacto econômico real.
Segundo o European Spinout Report 2025, da Dealroom, as startups deep tech e de ciências da vida originadas em universidades europeias já formam um ecossistema avaliado em US$ 398 bilhões. Mais do que isso, o capital de risco está seguindo esse movimento de forma consistente.
Hoje, 76 spinouts acadêmicas europeias atingiram valorizações de US$ 1 bilhão, receitas acima de US$ 100 milhões ou ambos. Empresas como Iceye, IQM, Isar Aerospace, Synthesia e Tekever deixaram de ser exceções para se tornarem provas concretas de que ciência pode virar negócio global.
Quando spinouts deixam de ser exceção e viram política econômica
O relatório mostra que a Europa construiu algo que muitos países ainda não conseguiram: um pipeline estruturado de spinouts acadêmicas, apoiado por fundos especializados, governança institucional madura e um ambiente de negócios mais previsível para deep tech.
Fundos como Cambridge Innovation Capital e Oxford Science Enterprises foram pioneiros nesse modelo. Hoje, essa lógica se expandiu para novos atores e novas geografias. Spinouts deixaram de ser vistas como projetos experimentais e passaram a ser tratadas como ativos estratégicos de retorno financeiro e soberania tecnológica.
Capital segue onde há estrutura, não apenas talento
Mesmo com o mercado europeu de venture capital ainda cerca de 50% abaixo do pico de 2021, as spinouts acadêmicas europeias estavam a caminho de captar US$ 9,1 bilhões em 2025, um dos maiores volumes da história.
Essas empresas nascem de laboratórios altamente especializados, o que explica por que o ecossistema europeu não se limita apenas a Oxford, Cambridge ou ETH Zurich. Existe uma cauda longa de universidades capazes de gerar spinouts relevantes quando há estrutura institucional, capital e conexão com o mercado.
O gargalo que ainda persiste: capital de crescimento
Apesar dos avanços, o relatório aponta um problema estrutural que a Europa ainda enfrenta: capital para crescimento em estágios mais avançados.
Quase 50% do financiamento late stage das spinouts deep tech e life sciences europeias ainda vem de fora do continente, principalmente dos Estados Unidos. Isso significa que parte do valor criado a partir de investimento público em ciência ainda é capturada por outros mercados.
Mesmo assim, a diferença é clara. A Europa já construiu o caminho até o crescimento. Muitos países ainda sequer chegaram a esse estágio.
E o Brasil com isso?
Ao ler esse relatório, a pergunta é inevitável: o que impede o Brasil de construir um funil semelhante?
Talento científico existe. Universidades públicas de excelência existem. Produção acadêmica relevante existe. O que ainda falta não é ciência. Falta estrutura, colaboração e ambiente de negócios para transformar pesquisa em empresas que escalam.
A experiência europeia mostra que spinouts não escalam sozinhas. Ciência não vira negócio apenas com boa vontade do pesquisador. Capital não flui sem previsibilidade regulatória e governança.
No Brasil, na prática, seguimos tratando o empreendedorismo científico como exceção, quando ele deveria ser política de desenvolvimento econômico, conectando universidade, Estado, investidores e empresas de forma coordenada.
O papel das políticas públicas e do ambiente de negócios
Se o Brasil quiser transformar ciência em deep tech de impacto global, precisará enfrentar questões estruturais que vão muito além de editais pontuais ou programas isolados:
É fundamental garantir segurança jurídica e clareza regulatória na relação entre universidades, pesquisadores e empresas. Ambiguidade em regras de propriedade intelectual, contratação e participação societária afasta investidores e desestimula pesquisadores a empreender.
O país precisa de instrumentos de capital para crescimento, não apenas para a fase inicial. Sem fundos nacionais ou mecanismos que sustentem rodadas late stage, o valor criado continuará sendo capturado fora do país.
É essencial incentivar fundos especializados em spinouts acadêmicas, com mandatos claros, governança profissional e conexão direta com universidades e centros de pesquisa.
É necessário alinhar incentivos. Universidades, agências de fomento, pesquisadores e investidores ainda operam com lógicas desconectadas. Sem contratos, métricas e expectativas alinhadas, o sistema gera atrito em vez de tração.
Políticas públicas precisam considerar a criação de infraestrutura de articulação do ecossistema de inovação, com mecanismos que tornem visíveis talentos, ativos científicos, oportunidades de mercado e caminhos de comercialização, fortalecendo a cooperação entre universidades, empresas, investidores e Estado. Essa lacuna ainda é pouco explorada no debate público brasileiro.
Por fim, o empreendedorismo científico precisa ser tratado como estratégia de desenvolvimento, e não como atividade periférica da academia.
Ciência não falta. Falta estrutura.
A Europa mostra que universidades podem ser motores centrais de deep tech, competitividade global e soberania tecnológica. Não porque tenham mais ciência, mas porque construíram estruturas que conectam conhecimento, capital, mercado e cooperação institucional.
O Brasil não precisa escolher entre ciência e mercado. Precisa construir as pontes que transformam uma coisa na outra.
O verdadeiro desperdício não é investir em ciência. É investir em ciência e não criar as condições para que ela vire valor econômico e impacto social.
Referência
European Spinout Report 2025 — Dealroom dealroom.co/reports/european-spinouts-report-2025
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Autora
Dra. Paula Coelho
Fundadora e CEO da Inovacia e da Conecta Cientista, fundadora e presidente da AI Safety Brazil, pesquisadora de empreendedorismo científico e doutora em Inovação Tecnológica.
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