Deep Techs em 2026: ciência forte, fomento fragmentado, escala limitada
O Brasil lidera em número de deep techs na América Latina, mas fica em terceiro em investimento privado. Ciência forte, fomento fragmentado e escala limitada definem o desafio de 2026.

Deep tech não é sobre velocidade. É sobre profundidade científica, risco tecnológico e impacto de longo prazo.
Em 2026, isso já não é mais uma previsão. É um diagnóstico. O setor entrou claramente em uma nova fase, marcada por menos experimentação dispersa e mais pressão por escala, integração industrial e inserção global. O debate deixou de ser se a tecnologia funciona e passou a ser como transformar ciência em impacto econômico real.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição central e paradoxal.
Ciência forte e liderança em número
O Brasil possui hoje o maior número de startups de base científica e tecnológica da América Latina. São 952 deep techs, o que representa 72,3% de todas as 1.316 deep techs mapeadas na região.
Esse dado, por si só, é relevante. Ele mostra que a ciência está acontecendo, que universidades e centros de pesquisa estão gerando conhecimento e que parte desse conhecimento está sendo transformada em empresas. O país construiu, ao longo das últimas décadas, uma base científica robusta, fortemente concentrada em universidades públicas, capaz de sustentar inovação de fronteira.
As deep techs brasileiras estão majoritariamente concentradas em áreas como biotecnologia, saúde, agro e tecnologias digitais aplicadas, refletindo vocações estruturais do país como biodiversidade, agronegócio competitivo e demandas em saúde pública.
Mas liderança em número não significa liderança em impacto.
O paradoxo do investimento privado
Apesar de concentrar a maior parte das deep techs da região, o Brasil ocupa apenas a terceira posição em volume de investimento privado em deep techs na América Latina.
Os números são claros:
- Chile: cerca de US$ 607 milhões, concentrados em apenas três empresas
- Argentina: aproximadamente US$ 486 milhões, concentrados em duas empresas
- Brasil: cerca de US$ 216 milhões, distribuídos em um ecossistema muito maior
Esse padrão revela o que os próprios autores do estudo descrevem como um jogo de outliers, no qual poucos campeões altamente internacionalizados puxam grandes rodadas de investimento e dão visibilidade global aos ecossistemas chileno e argentino.
No Brasil, o capital se dilui em um número maior de empresas, muitas ainda em estágios iniciais, com menor tração internacional e maior dependência de recursos públicos.
Isso não é apenas uma questão de dinheiro disponível. É uma questão de modelo de crescimento, estruturação para o mercado global e maturidade do ecossistema.
Mercado interno forte pode virar armadilha
O Brasil possui um diferencial importante em relação a outros países da região: um mercado interno grande, capaz de absorver inovação localmente. Esse fator reduz riscos iniciais e facilita a sobrevivência das startups nos primeiros anos.
No entanto, em deep tech, esse mesmo fator pode se tornar uma armadilha.
Análises internacionais mostram que deep techs bem-sucedidas tendem a nascer globais desde o início. O risco tecnológico elevado, os ciclos longos de validação e a necessidade de capital paciente exigem mercados amplos, acesso a cadeias globais de valor e investidores com visão internacional.
Startups que se estruturam apenas para o mercado interno tendem a ser menos atraentes para investidores globais, especialmente em setores intensivos em ciência e infraestrutura.
Deep tech precisa nascer global, mesmo quando resolve problemas locais.
Fomento robusto, mas fragmentado
Diferentemente de muitos países, o Brasil não sofre com ausência de instrumentos públicos de fomento à inovação. O país dispõe de uma arquitetura ampla e diversificada, que inclui:
- O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), operado principalmente pela FINEP
- Programas da EMBRAPII, voltados à inovação industrial
- As Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), com destaque para a FAPESP
- Iniciativas do SEBRAE e instrumentos do BNDES
O problema não é falta de política pública. É fragmentação, sobreposição e descontinuidade.
Os dados mostram que:
- 47% das deep techs brasileiras não receberam nenhum tipo de investimento
- Apenas 7% receberam capital privado
- 36% dependem exclusivamente de recursos públicos
Há forte concentração de recursos nos estágios iniciais da pesquisa, enquanto fases críticas como prototipagem avançada, validação, certificação e escalonamento industrial permanecem subfinanciadas. Esse desalinhamento reforça o chamado vale da morte, onde tecnologias cientificamente sólidas avançam tecnicamente, mas não conseguem chegar ao mercado.
Relatórios institucionais da própria FINEP reconhecem esse gargalo, apontando fragilidades especialmente entre os TRLs 4 e 7, exatamente o ponto onde o risco aumenta e o capital privado ainda hesita em entrar.
O que os ecossistemas maduros ensinam
Estudos internacionais recentes convergem para um mesmo diagnóstico: deep tech não escala apenas com venture capital.
Relatórios como From Tech to Deep Tech e o Israeli Deep Tech Report 2025 mostram que ecossistemas bem-sucedidos tratam deep techs como infraestrutura estratégica. Nesses ambientes, o Estado assume parte relevante do risco tecnológico nos estágios intermediários, a indústria atua como demandante e ambiente real de teste, e o capital privado entra quando a tecnologia já foi parcialmente validada.
Na Europa, a McKinsey aponta que a ausência de pipelines integrados entre pesquisa, validação e mercado limita a conversão de ciência em impacto econômico, mesmo em países com forte produção científica. O estudo identifica lacunas estruturais entre TRLs intermediários como um dos principais entraves ao crescimento das deep techs e estima que a superação desses gargalos poderia gerar mais de US$ 1 trilhão em impacto econômico.
Israel, por sua vez, demonstra que coordenação institucional, continuidade de financiamento e integração entre academia, indústria e governo são fatores decisivos para escalar deep techs globalmente.
O ponto comum é claro: deep tech não é política setorial. É estratégia de desenvolvimento.
O que 2026 exige do Brasil
Se o Brasil quiser transformar sua liderança científica em impacto global, alguns movimentos são inevitáveis:
- ampliar e profissionalizar a criação de spin offs acadêmicas
- atrair capital privado especializado em deep tech
- estruturar negócios desde o início com ambição internacional
- integrar ciência, indústria, infraestrutura e governança
- coordenar instrumentos de fomento ao longo de toda a trajetória tecnológica
Produzir ciência já fazemos bem. Criar startups também. O desafio de 2026 é alinhar fomento, mercado e ambição global à profundidade científica que o país já possui.
Deep tech não é corrida curta. É estratégia de longo prazo para empresas, investidores e países.
Referências
- Brasil tem o maior número de deep techs na América Latina, mas é o terceiro em investimento privado. Agência FAPESP, 2025. agencia.fapesp.br
- Europe's Deep Tech Engine Could Spur $1 Trillion in Economic Growth. McKinsey Global Institute, 2025. mckinsey.com.br
- The Great Wave of Deep Tech: 2020–2025 (From Tech to Deep Tech). Boston Consulting Group e Hello Tomorrow, 2020. media-publications.bcg.com
- Israeli Deep Tech Report 2025. Innovation Israel e Dealroom.co, 2025. innovationisrael.org.il
- European Innovation Council to invest €1.4 billion in deep tech and scale up of strategic technologies in 2025. European Commission, 2025. eic.ec.europa.eu
- Crossing the Valley of Death, partes 1 e 2. Hello Tomorrow. hello-tomorrow.org
- A Finep e a neoindustrialização: startups, deep techs e seus ecossistemas. PANSERA, C.; PEREGRINO, F. Rio de Janeiro: Expressão Popular, 2024. finep.gov.br
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Autora
Dra. Paula Coelho
Fundadora e CEO da Inovacia e da Conecta Cientista, fundadora e presidente da AI Safety Brazil, pesquisadora de empreendedorismo científico e doutora em Inovação Tecnológica.
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