188 cientistas entre os mais influentes do mundo. E se essa ciência também virar negócios?
A Unicamp acaba de ter 188 pesquisadores reconhecidos entre os cientistas mais influentes do mundo. O Global Innovation Index 2026 traz a outra metade da discussão: como transformar excelência científica em tecnologias, startups, novos mercados e impacto.

O Brasil sabe produzir ciência de excelência.
Uma notícia divulgada pela Unicamp nesta semana ajuda a dimensionar essa capacidade: 188 cientistas da universidade aparecem entre os pesquisadores mais influentes do mundo em um ranking global elaborado pela Universidade de Stanford em parceria com a Elsevier.
São 99 pesquisadores reconhecidos pelo impacto ao longo da carreira e 105 pelo desempenho científico referente a 2025. Como 16 aparecem nas duas listas, são 188 pesquisadores distintos e 204 citações no total. O Brasil tem 1.195 cientistas no levantamento.
O dado é relevante por si só.
Mas ele também abre uma pergunta que deveria ocupar cada vez mais espaço na agenda de inovação brasileira: como transformar parte dessa excelência científica em novos produtos, empresas, tecnologias e negócios?
Não por acaso, essa é justamente a discussão central do Global Innovation Index 2026, publicado pela World Intellectual Property Organization — WIPO.
O tema desta edição é Powering Entrepreneurs at the Frontier of Science: como criar ecossistemas capazes de transformar descobertas científicas em startups e spin-offs que cheguem ao mercado e ganhem escala.
Publicação científica é impacto. Mas não é o único impacto possível
O ranking que colocou os pesquisadores da Unicamp em destaque considera indicadores como citações, índice h, autoria e um indicador composto de impacto científico.
Isso mostra uma dimensão essencial da ciência: a sua influência sobre a produção de novo conhecimento.
Mas existem outras formas pelas quais esse conhecimento pode gerar impacto.
- Uma descoberta pode resultar em uma patente.
- Uma patente pode ser licenciada para uma empresa.
- Um método desenvolvido durante uma pesquisa pode virar um serviço.
- Um software científico pode dar origem a uma startup.
- Uma tecnologia pode resolver um problema industrial.
- E um pesquisador pode se tornar fundador, cofundador, advisor ou parceiro científico de um novo negócio.
Nada disso diminui o valor da pesquisa básica.
Ao contrário.
É justamente porque existe ciência forte que determinadas oportunidades empresariais passam a existir.
A WIPO está olhando exatamente para essa fronteira
O Global Innovation Index 2026 usa o conceito de deep science entrepreneurship para tratar de empresas que surgem diretamente de avanços científicos relevantes.
Entram nesse universo áreas como materiais avançados, energia, genômica, tecnologias de saúde, física quântica e biologia sintética — campos em que chegar ao mercado exige pesquisa prolongada, infraestrutura especializada e validação rigorosa.
É um modelo bastante diferente do de uma startup puramente digital.
Em muitos desses negócios, há anos de pesquisa antes da receita.
São necessários laboratórios, equipamentos especializados, protótipos, testes, propriedade intelectual e capital paciente.
Por isso, a passagem da ciência para o mercado dificilmente acontece de forma linear.
Ela depende de um ecossistema.
US$ 7,6 trilhões mostram que ciência também cria valor econômico
Os números apresentados pela WIPO ajudam a colocar essa discussão em perspectiva.
Mais de 30 mil startups de deep science foram criadas desde 2000.
Em 2025, elas chegaram a representar 16% das novas startups apoiadas por venture capital. E as empresas de deep science mapeadas pela WIPO alcançaram, juntas, um valor estimado de US$ 7,6 trilhões.
O dado deixa uma mensagem importante.
Transformar ciência em negócio não é uma agenda periférica de inovação. É uma disputa econômica global.
Países capazes de aproximar universidades, laboratórios, empreendedores, investidores, empresas e governo aumentam suas chances de converter conhecimento científico em novas indústrias.
E aí aparece uma diferença fundamental entre ter ciência e capturar valor a partir dela.
O Brasil tem ciência. O desafio é construir mais pontes
O Brasil aparece no levantamento da WIPO com 53 empresas de deep science, das quais apenas duas estavam classificadas em estágio mais avançado.
Ao mesmo tempo, há um sinal positivo: entre 2020 e 2025, o número de empresas brasileiras desse tipo cresceu 96%, colocando o país entre as economias de renda média de maior crescimento nesse indicador.
Coloque esse número ao lado dos 1.195 cientistas brasileiros presentes no ranking de pesquisadores altamente citados e aparece uma provocação interessante.
Não existe uma relação direta entre essas duas estatísticas — elas medem coisas diferentes.
Mas a comparação ajuda a visualizar uma oportunidade: temos uma base científica muito maior do que o número de negócios de deep science que conseguimos levar à escala.
E provavelmente existe muito conhecimento com potencial de aplicação que ainda não encontrou o parceiro certo, o problema certo ou o modelo de negócio adequado.
Nem todo cientista precisa virar empreendedor
Esse ponto é importante.
A solução não é transformar todo pesquisador em CEO.
Nem deveria ser.
Empreender exige competências, interesses e disposição para riscos que não precisam fazer parte da trajetória de todo cientista.
Mas o pesquisador também não precisa carregar sozinho toda a jornada de comercialização.
Uma tecnologia pode chegar ao mercado por diferentes caminhos:
- licenciamento para uma empresa existente;
- parceria para P&D;
- criação de spin-off;
- criação de startup com um empreendedor complementar;
- projeto cooperado;
- inovação aberta;
- transferência de tecnologia;
- ou prestação de serviços altamente especializados.
O desafio é fazer com que essas possibilidades sejam conhecidas antes que uma tecnologia promissora fique parada por falta de conexão.
A conexão passa a ser parte da infraestrutura de inovação
Quando pensamos em infraestrutura científica, normalmente lembramos de laboratórios, equipamentos, supercomputadores e plantas piloto.
Tudo isso é indispensável.
Mas existe uma infraestrutura menos visível e igualmente necessária: a infraestrutura de conexões.
- Quem conecta o pesquisador que desenvolveu uma tecnologia à empresa que possui o problema?
- Quem aproxima uma startup de um especialista capaz de resolver uma lacuna técnica?
- Quem identifica o edital adequado ao estágio daquela tecnologia?
- Quem encontra o investidor cuja tese realmente combina com aquele negócio?
- Quem mostra ao pesquisador que uma aplicação para o conhecimento que ele desenvolveu existe em outro setor?
Quanto maior o volume de ciência produzido, mais importante se torna a capacidade de descobrir, qualificar e conectar esses ativos.
Cientistas influentes podem gerar muito mais do que citações
Ter 188 pesquisadores de uma única universidade entre os cientistas mais influentes do mundo é uma demonstração da capacidade científica brasileira.
O próximo desafio não é substituir publicação por empreendedorismo.
É acrescentar possibilidades.
- Um artigo pode gerar outro artigo.
- Mas também pode gerar uma patente.
- Uma patente pode gerar um licenciamento.
- Uma tecnologia pode gerar uma startup.
- Uma colaboração pode gerar um novo produto.
- E um conhecimento construído durante décadas pode solucionar um problema que uma empresa ainda nem sabe onde procurar.
O Global Innovation Index 2026 resume bem o desafio desta década: não basta produzir grandes descobertas. Os ecossistemas mais competitivos serão aqueles capazes de transformá-las sistematicamente em produtos, empresas, empregos e impacto para a sociedade.
O Brasil já provou que consegue produzir ciência relevante.
Agora precisamos aumentar nossa capacidade de conectar essa ciência às oportunidades certas.
E talvez seja justamente nessa conexão que esteja uma das maiores oportunidades econômicas do país.
Referências
- Universidade Estadual de Campinas — Unicamp, 14 de outubro de 2026. Unicamp tem 188 cientistas entre os mais influentes do mundo, aponta ranking. Portal Unicamp
- World Intellectual Property Organization — WIPO. Global Innovation Index 2026: Powering Entrepreneurs at the Frontier of Science.
- WIPO — Global Innovation Index 2026. Special theme: Powering entrepreneurs at the frontier of science – turning pilots into pipelines.
- WIPO, 2026. Deep Science Startup Tracker e principais resultados do GII 2026.
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Texto e pesquisa elaborados pela Dra. Paula Coelho. O conteúdo foi formatado com o apoio de tecnologia de inteligência artificial para facilitar a leitura e a compreensão.
Autora
Dra. Paula Coelho
Fundadora e CEO da Inovacia e da Conecta Cientista, fundadora e presidente da AI Safety Brazil, pesquisadora de empreendedorismo científico e doutora em Inovação Tecnológica.
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