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188 cientistas entre os mais influentes do mundo. E se essa ciência também virar negócios?

A Unicamp acaba de ter 188 pesquisadores reconhecidos entre os cientistas mais influentes do mundo. O Global Innovation Index 2026 traz a outra metade da discussão: como transformar excelência científica em tecnologias, startups, novos mercados e impacto.

Dra. Paula Coelho15 de outubro de 20266 min de leitura
Pesquisadora ao microscópio em laboratório, com o prédio da Unicamp ao fundo, ícones de patente, ideia e negócios conectados e pessoas conversando diante do horizonte de São Paulo.

O Brasil sabe produzir ciência de excelência.

Uma notícia divulgada pela Unicamp nesta semana ajuda a dimensionar essa capacidade: 188 cientistas da universidade aparecem entre os pesquisadores mais influentes do mundo em um ranking global elaborado pela Universidade de Stanford em parceria com a Elsevier.

São 99 pesquisadores reconhecidos pelo impacto ao longo da carreira e 105 pelo desempenho científico referente a 2025. Como 16 aparecem nas duas listas, são 188 pesquisadores distintos e 204 citações no total. O Brasil tem 1.195 cientistas no levantamento.

O dado é relevante por si só.

Mas ele também abre uma pergunta que deveria ocupar cada vez mais espaço na agenda de inovação brasileira: como transformar parte dessa excelência científica em novos produtos, empresas, tecnologias e negócios?

Não por acaso, essa é justamente a discussão central do Global Innovation Index 2026, publicado pela World Intellectual Property Organization — WIPO.

O tema desta edição é Powering Entrepreneurs at the Frontier of Science: como criar ecossistemas capazes de transformar descobertas científicas em startups e spin-offs que cheguem ao mercado e ganhem escala.

Publicação científica é impacto. Mas não é o único impacto possível

O ranking que colocou os pesquisadores da Unicamp em destaque considera indicadores como citações, índice h, autoria e um indicador composto de impacto científico.

Isso mostra uma dimensão essencial da ciência: a sua influência sobre a produção de novo conhecimento.

Mas existem outras formas pelas quais esse conhecimento pode gerar impacto.

  • Uma descoberta pode resultar em uma patente.
  • Uma patente pode ser licenciada para uma empresa.
  • Um método desenvolvido durante uma pesquisa pode virar um serviço.
  • Um software científico pode dar origem a uma startup.
  • Uma tecnologia pode resolver um problema industrial.
  • E um pesquisador pode se tornar fundador, cofundador, advisor ou parceiro científico de um novo negócio.

Nada disso diminui o valor da pesquisa básica.

Ao contrário.

É justamente porque existe ciência forte que determinadas oportunidades empresariais passam a existir.

A WIPO está olhando exatamente para essa fronteira

O Global Innovation Index 2026 usa o conceito de deep science entrepreneurship para tratar de empresas que surgem diretamente de avanços científicos relevantes.

Entram nesse universo áreas como materiais avançados, energia, genômica, tecnologias de saúde, física quântica e biologia sintética — campos em que chegar ao mercado exige pesquisa prolongada, infraestrutura especializada e validação rigorosa.

É um modelo bastante diferente do de uma startup puramente digital.

Em muitos desses negócios, há anos de pesquisa antes da receita.

São necessários laboratórios, equipamentos especializados, protótipos, testes, propriedade intelectual e capital paciente.

Por isso, a passagem da ciência para o mercado dificilmente acontece de forma linear.

Ela depende de um ecossistema.

US$ 7,6 trilhões mostram que ciência também cria valor econômico

Os números apresentados pela WIPO ajudam a colocar essa discussão em perspectiva.

Mais de 30 mil startups de deep science foram criadas desde 2000.

Em 2025, elas chegaram a representar 16% das novas startups apoiadas por venture capital. E as empresas de deep science mapeadas pela WIPO alcançaram, juntas, um valor estimado de US$ 7,6 trilhões.

O dado deixa uma mensagem importante.

Transformar ciência em negócio não é uma agenda periférica de inovação. É uma disputa econômica global.

Países capazes de aproximar universidades, laboratórios, empreendedores, investidores, empresas e governo aumentam suas chances de converter conhecimento científico em novas indústrias.

E aí aparece uma diferença fundamental entre ter ciência e capturar valor a partir dela.

O Brasil tem ciência. O desafio é construir mais pontes

O Brasil aparece no levantamento da WIPO com 53 empresas de deep science, das quais apenas duas estavam classificadas em estágio mais avançado.

Ao mesmo tempo, há um sinal positivo: entre 2020 e 2025, o número de empresas brasileiras desse tipo cresceu 96%, colocando o país entre as economias de renda média de maior crescimento nesse indicador.

Coloque esse número ao lado dos 1.195 cientistas brasileiros presentes no ranking de pesquisadores altamente citados e aparece uma provocação interessante.

Não existe uma relação direta entre essas duas estatísticas — elas medem coisas diferentes.

Mas a comparação ajuda a visualizar uma oportunidade: temos uma base científica muito maior do que o número de negócios de deep science que conseguimos levar à escala.

E provavelmente existe muito conhecimento com potencial de aplicação que ainda não encontrou o parceiro certo, o problema certo ou o modelo de negócio adequado.

Nem todo cientista precisa virar empreendedor

Esse ponto é importante.

A solução não é transformar todo pesquisador em CEO.

Nem deveria ser.

Empreender exige competências, interesses e disposição para riscos que não precisam fazer parte da trajetória de todo cientista.

Mas o pesquisador também não precisa carregar sozinho toda a jornada de comercialização.

Uma tecnologia pode chegar ao mercado por diferentes caminhos:

  • licenciamento para uma empresa existente;
  • parceria para P&D;
  • criação de spin-off;
  • criação de startup com um empreendedor complementar;
  • projeto cooperado;
  • inovação aberta;
  • transferência de tecnologia;
  • ou prestação de serviços altamente especializados.

O desafio é fazer com que essas possibilidades sejam conhecidas antes que uma tecnologia promissora fique parada por falta de conexão.

A conexão passa a ser parte da infraestrutura de inovação

Quando pensamos em infraestrutura científica, normalmente lembramos de laboratórios, equipamentos, supercomputadores e plantas piloto.

Tudo isso é indispensável.

Mas existe uma infraestrutura menos visível e igualmente necessária: a infraestrutura de conexões.

  • Quem conecta o pesquisador que desenvolveu uma tecnologia à empresa que possui o problema?
  • Quem aproxima uma startup de um especialista capaz de resolver uma lacuna técnica?
  • Quem identifica o edital adequado ao estágio daquela tecnologia?
  • Quem encontra o investidor cuja tese realmente combina com aquele negócio?
  • Quem mostra ao pesquisador que uma aplicação para o conhecimento que ele desenvolveu existe em outro setor?

Quanto maior o volume de ciência produzido, mais importante se torna a capacidade de descobrir, qualificar e conectar esses ativos.

Cientistas influentes podem gerar muito mais do que citações

Ter 188 pesquisadores de uma única universidade entre os cientistas mais influentes do mundo é uma demonstração da capacidade científica brasileira.

O próximo desafio não é substituir publicação por empreendedorismo.

É acrescentar possibilidades.

  • Um artigo pode gerar outro artigo.
  • Mas também pode gerar uma patente.
  • Uma patente pode gerar um licenciamento.
  • Uma tecnologia pode gerar uma startup.
  • Uma colaboração pode gerar um novo produto.
  • E um conhecimento construído durante décadas pode solucionar um problema que uma empresa ainda nem sabe onde procurar.

O Global Innovation Index 2026 resume bem o desafio desta década: não basta produzir grandes descobertas. Os ecossistemas mais competitivos serão aqueles capazes de transformá-las sistematicamente em produtos, empresas, empregos e impacto para a sociedade.

O Brasil já provou que consegue produzir ciência relevante.

Agora precisamos aumentar nossa capacidade de conectar essa ciência às oportunidades certas.

E talvez seja justamente nessa conexão que esteja uma das maiores oportunidades econômicas do país.

Referências

  • Universidade Estadual de Campinas — Unicamp, 14 de outubro de 2026. Unicamp tem 188 cientistas entre os mais influentes do mundo, aponta ranking. Portal Unicamp
  • World Intellectual Property Organization — WIPO. Global Innovation Index 2026: Powering Entrepreneurs at the Frontier of Science.
  • WIPO — Global Innovation Index 2026. Special theme: Powering entrepreneurs at the frontier of science – turning pilots into pipelines.
  • WIPO, 2026. Deep Science Startup Tracker e principais resultados do GII 2026.

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Este artigo faz parte do Radar Conecta Cientista, que acompanha ciência, tecnologias que chegam ao mercado, empreendedorismo científico e as conexões que transformam conhecimento em inovação e negócios.

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Texto e pesquisa elaborados pela Dra. Paula Coelho. O conteúdo foi formatado com o apoio de tecnologia de inteligência artificial para facilitar a leitura e a compreensão.

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Autora

Dra. Paula Coelho

Fundadora e CEO da Inovacia e da Conecta Cientista, fundadora e presidente da AI Safety Brazil, pesquisadora de empreendedorismo científico e doutora em Inovação Tecnológica.

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